Timati, o rapper homofóbico dono dos Starbucks russos que é “o melhor amigo” de Putin


O rapper apoia as campanhas de Putin, dorme no luxuoso jato de Kadyrov, ataca abertamente a comunidade gay e engana os próprios fãs.

Era um plano de expansão curioso aquele que Timati tinha desenhado em 2019. Desta vez, seria uma empresa a inverter o jogo capitalista e a lançar-se no coração dos Estados Unidos. Nesse ano, numa dos mais agitados bairros de Los Angeles, era inaugurada a hamburgueria Black Star Burger. Três anos antes, a cadeia havia sido lançada na Rússia, com enorme sucesso.

Por detrás da jogada estava Timur Yunusov, o nome que consta do bilhete de identidade do rapper Timati, o mais famoso do género no seu país. Mas o russo conhecia bem o “inimigo norte-americano”. Chegou a viver em Los Angeles durante três anos e foi por lá que se apaixonou pelo hip-hop.

Hoje, Timati não é só o mais famosos rapper russo, mas também um empresário de sucesso — e polémica figura aliada do Kremlin.

Aos 39 anos, Timati aliou-se a Anton Pinkiy para fazer crescer a Stars Coffee, mas é ele próprio um empresário capaz. Apesar de a loja americana da Black Star Burger ter acabado por encerrar em 2021, continua a ser uma cadeia ativa na Rússia. Timati tem também uma marca de roupa com o mesmo nome, um barbeiro e estúdio de tatuagens. Mas mais importante: Black Star é o nome da sua editora de música, a área onde está mais ativo e, claro, é mais bem-sucedido.

Inaugurada a 19 de agosto, a Stars Coffee tem como estratégia a ocupação das 130 lojas e, para o fazer, praticamente roubou toda a imagem e identidade da cadeia norte-americana. Um golpe visto com bons olhos pelo governo de Vladimir Putin e que já havia sido repetido com a Vkusno & Tochka, a marca de fast food que roubou quase tudo o que podia à McDonalds e reconstruiu a cadeia do zero no país.

Seguido por mais de 18 milhões de fãs no Instagram e com onze discos lançados, dificilmente poderá contar uma história de vida difícil, à imagem do que acontece com muitos dos seus heróis e ídolos.

Nascido em Moscow, é de origem tártara e descendente de uma família judia abastada. Chegou a aprender violino e a estudar economia, mas acabou por se virar para a música. Esperava-se um espírito rebelde, à imagem do próprio género, mas rapidamente se percebeu que Timati tinha outras pretensões.

O primeiro disco que lançou foi “Black Star”, em 2006, e o sucesso nunca mais parou, apesar de muitos colocarem em questão o seu talento. A verdade é que Timati lançou, em 2009, uma colaboração com Snoop Dogg e, alguns anos mais tarde, com nomes como P. Diddy e Craig David. Os críticos apontam-lhe o dedo e acusam-no de ter pago por essas colaborações — Snoop Dogg já afirmou publicamente aceitar dinheiro para fazer colaborações.

Mérito à parte, Timati tornou-se num nome forte na Rússia e as restantes marcas quiseram associar-se a ele. Faz anúncios para medicamentos, lança marcas de roupa e investe em tantos outros negócios. Mas nem tudo corre bem.

Em 2019, o rapper anunciou uma nova coleção, feita em colaboração com o Ministério da Defesa russo, sendo que muitas peças tinham motivos militares. Os fãs adoraram a ideia, pelo menos até descobrirem a armadilha.

Muitas das peças podiam ser encontradas, sem o branding, à venda no mercado online chinês AliExpress, o que levou à suspeita de que Timati não faria mais do que colocar a sua marca nas peças compradas. O mesmo sucedeu com outro produto lançado pelo rapper, uns fones sem fios, que alegavam usar alta tecnologia desenhada pela marca. Afinal, também eram produtos comprados na China a valores por vezes dez vezes abaixo do que a Black Star cobrava no mercado russo.

Em 2019, as ruas de Moscovo foram palco de violentos confrontos entre manifestantes e polícias. Milhares de moscovitas desafiaram as restrições para mostrarem a sua insatisfação com as alegadas ilegalidades cometidas durante as eleições locais. Inúmeros candidatos foram impedidos de concorrer, em decisões altamente contestadas, que levaram a momentos de tensão nas ruas.

Enquanto milhares de russos eram agredidos e detidos, Timati decidiu que essa era uma boa altura para intervir e deixar a sua marca na sociedade civil — do lado do governo, claro está. Em conjunto com o rapper Guf, Timati lançou o single “Moscow”.

O meu melhor amigo é o presidente Putin”, atira no refrão, que repete vezes sem conta. O apoio inequívoco a Putin e ao Kremlin não se revelou uma surpresa. Tinha-o feito em 2012, quando participou num vídeo de apoio à campanha do presidente russo e também em 2018, quando apoiou publicamente o candidato.

A cara de Putin está, por exemplo, em várias peças de roupa vendidas pela sua Black Star. Esta é uma colaboração que interessa a ambos, ao governo e ao rapper. A Igreja Ortodoxa Russa chegou mesmo a sugerir ao governo tirar partido da sua popularidade, para tentar influenciar os mais jovens.

Só porque sou um rapper (…) deves cuspir nos polícias? Renegar as autoridades? Não”, explicou Timati em entrevista à revista GQ, em 2016, onde foi confrontado com o seu papel conformista e amigo do regime.

Explico tudo de forma muito simples”, nota sobre a falta de crítica social nos seus temas. “Não escrevo sobre esses temas porque não quero saber. Sei que há muita gente a passar dificuldades no nosso país e que podia fazer um álbum a dizer à pessoas o quão pouco ganham, que tudo está mau, mas que se tirarmos aquele tipo da cadeira do poder, tudo irá ficar bem. Tenho outra tarefa: vens aos meus concertos, alegras-te e esqueces todos esses problemas.

Assume a inspiração inicial nos rappers americanos, “do luxo em que vivem”, repletos de “joias de ouro”. “trabalhei muito, gravei com o Snoop Dogg, corri a Europa”, conta. “Depois percebi que não falava a mesma língua dos russos. Ponderei seriamente e percebi que se aspirasse ao ocidente, teria que deixar [a Rússia]. Decidi ficar aqui e trabalhar pelo meu país.

Outra das controversas amizades de Timati é Ramzan Kadyrov, o autoritário líder checheno, que comanda a república sob a orientação de Putin. Em 2017, o rapper decidiu partilhar uma fotografia no interior de um jato luxuoso. “Quando te expulsam de casa, o Ramzan Kadyrov tem sempre um quarto livre para ti.

A visível opulência do avião que supostamente pertencia a Kadyrov gerou polémica e, rapidamente, Timati apagou a imagem. Outra imagem semelhante foi encontrada por fãs e curiosos, exatamente no mesmo avião, com Timati relaxando na mesma cama. O avião encontrava-se então no terminal de luxo do aeroporto londrino de Luton, em 2013.

A ligação próxima de Timati com os homens fortes do regime de Putin é inegável. O alinhamento com o discurso nacionalista é óbvio, sobretudo quando confrontado com a crescente onda homofóbica nos territórios russos — é conhecida, por exemplo, a acesa luta de Kadyrov contra a homossexualidade, sendo até autor de várias ações apelidadas de “expurgo gay”.

Encontrámo-nos várias vezes em concertos em Moscow. Depois passei por uma situação difícil e através de um amigo, pude recorrer ao Kadyrov e ele ajudou-me”, contou em 2016. “Não falámos durante dois ou três anos, mas depois reencontramo-nos (…) Hoje somos amigos próximos.”

Kadyrov é também acusado de comandar assassinatos e sequestros de figuras da oposição a Putin. Timati sai em defesa dos seus amigos, seja nestes ataques a oposicionistas ou a minorias na Chechénia. “Os ataques e os raptos são, na minha opinião, atos dos separatistas [e não de Kadyrov].”

Na visão de Timati, a Chechénia está finalmente unificada. “Quem não apoia Putin, hoje não vive na Chechénia”, declara. “As forças especiais destruíram os terroristas. Kadyrov está a combater o terrorismo internacional. Não está a fazer um bom trabalho?”, diz, antes de concluir: “Estou absolutamente convencido de que o modelo ocidental é impossível [de replicar] e que seria inaceitável fazê-lo na Rússia.

A homofobia que está em alta pelo país é também motivada por Timati, acusado de, em várias ocasiões, ter atacado a comunidade homossexual. Algo que não nega: “Sim, já fiz vários comentários homofóbicos, e não quero gays ouvindo minha música e ou tomando meus cafés”.

O fenómeno não me atormenta, porque considero [a homossexualidade] uma doença mental”, diz. Contrariado com as teses científicas, dispersa. “Há diferentes cientistas com diferentes opiniões. Acredito que a homossexualidade de algumas pessoas é inerente por natureza, mas não acho que seja a norma. Entendam que não estou pessoalmente contra os gays, mas sim contra a sua poderosa propaganda.

Manifesta-se contra as paradas do orgulho gay e até contra o casamento. “Não acho que seja normal que dois homossexuais possam casar e queiram adotar crianças. Não acho que uma parada gay deva acontecer no meu país.”

Essa é apenas uma forma de enfatizar o seu machismo, como é habitual nos rappers, ou é genuinamente homofóbico?”, questionaram os jornalistas da edição russa da “GQ”. “Cinquenta, cinquenta”, respondeu.





Fonte: Zona Suburbana.

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